
Quando Miguel Lourenço Marques chegou à Classe Bilíngue de Surdos da Escola Municipal Manoel Lira, em março deste ano, ele ainda não conhecia a Língua Brasileira de Sinais (Libras). Para se comunicar, utilizava principalmente gestos e sinais próprios. Poucos meses depois, a mãe, Elizangela Vieira, já consegue perceber mudanças que vão muito além do aprendizado de uma nova língua.
“Eu acho muito bom, porque antes ele só sinalizava, e hoje ele evoluiu muito. Quando entrou aqui, não sabia nada de Libras, só fazia alguns gestos, e agora está bem evoluído. Ele é uma criança muito inteligente, aprende coisas novas todos os dias e está se desenvolvendo muito bem. É gratificante ver esse projeto da Prefeitura e perceber que está dando certo para os nossos filhos”, conta Elisângela.
A história de Miguel representa uma das transformações proporcionadas pela política de Educação Bilíngue de Surdos implementada pela Prefeitura de Araguaína, por meio da Secretaria Municipal da Educação (SEMED) e da Gerência de Educação Especial. A iniciativa coloca a Libras no centro do processo de ensino, comunicação e interação dos estudantes surdos, garantindo também o acesso ao português em sua modalidade escrita.
Uma escola onde a língua também é parte do aprendizado
Araguaína conta com uma Classe Bilíngue de Surdos nos anos iniciais do Ensino Fundamental, do 1º ao 5º ano, na Escola Municipal Manoel Lira, que funciona como escola-polo da modalidade sendo a única escola do Tocantins com uma classe bilíngue voltada para essa etapa do ensino fundamental.
Atualmente, quatro estudantes surdos de diferentes regiões da cidade são atendidos na turma. Para garantir que a distância entre os bairros não seja uma barreira, o Município disponibiliza transporte escolar para o deslocamento dos alunos até a escola.
A concentração dos estudantes em uma escola-polo também cria uma experiência importante para as crianças: a possibilidade de conviver diariamente com outros estudantes surdos, trocar experiências e construir relações utilizando a Libras.
Na sala de aula, as diferentes áreas do conhecimento são desenvolvidas tendo a Libras como língua de instrução, comunicação e interação. A modalidade conta com três professores surdos, fortalecendo uma relação pedagógica em que o estudante pode aprender os conteúdos curriculares por meio de uma língua plenamente acessível.
A matriz curricular é trabalhada por meio da Libras e do português escrito como línguas de instrução, garantindo que a língua não seja uma barreira para o acesso ao conhecimento.
Para Miguel, uma nova forma de se comunicar
Para Elisângela, a mudança na rotina do filho também trouxe tranquilidade para a família. Inicialmente, ela teve receio de retirar Miguel da escola comum onde estudava e levá-lo para uma classe específica para estudantes surdos.
“Eu fiquei com medo de trazer ele, porque ele estudava em uma escola comum. Mas depois pensei que essa era uma oportunidade para ele aprender Libras, conviver com outras crianças surdas e ter professores surdos. Hoje eu vejo que ele está muito bem e evoluindo cada vez mais. Eu me sinto muito feliz e realizada em ver o desenvolvimento dele”, relata.
A experiência também tem repercutido dentro de casa. Com o avanço na aprendizagem da Libras, as famílias percebem melhorias na comunicação e no comportamento dos estudantes no ambiente doméstico, ampliando os efeitos da política para além dos muros da escola.
Libras também chega aos estudantes ouvintes
A política de inclusão linguística de Araguaína não se limita aos estudantes surdos. A rede municipal também oferece Libras como língua adicional para estudantes ouvintes do 3º, 4º e 5º anos do Ensino Fundamental, contemplando escolas das zonas urbana e rural.
Atualmente, 13 professores de Libras atuam distribuídos pela rede municipal, levando o ensino da língua para diferentes unidades escolares.
A proposta é aproximar crianças ouvintes da Libras ainda durante a educação básica, criando novas possibilidades de comunicação e contribuindo para uma sociedade mais preparada para conviver com pessoas surdas nos diferentes espaços sociais, educacionais e profissionais.
Acessibilidade como compromisso com a aprendizagem
Para a secretária municipal da Educação, Marzonete Duarte, garantir acessibilidade linguística é assegurar que o estudante tenha condições reais de participar do processo educacional e desenvolver todo o seu potencial.
“A inclusão acontece quando conseguimos garantir ao estudante não apenas o acesso à escola, mas também as condições necessárias para aprender, se comunicar e participar de forma plena. Porque permite que eles tenham uma língua de instrução, de interação e de expressão. Ao mesmo tempo, quando ensinamos Libras aos estudantes ouvintes e formamos nossos profissionais e famílias, estamos ampliando essa acessibilidade para toda a comunidade escolar”, destacou.
A política também fortalece a valorização da identidade e da cultura surda, ao reconhecer a Libras como elemento central na construção das relações pedagógicas e sociais dos estudantes. Mais do que uma estratégia restrita à sala de aula, a Educação Bilíngue de Surdos amplia a participação dos estudantes e aproxima escola, família e comunidade.


Secom: Araguaína
Fotos : Divulgação




